sexta-feira, 29 de abril de 2016

A miss-bumbum e o clima de fim da festa no Planalto

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Gilberto Natalini
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A miss-bumbum e o clima de fim da festa no Planalto

Mulher de um dos novos ministros da equipe de Dilma, ex-miss Bumbum tira fotos no gabinete do marido e dissemina na internet o retrato de um governo que agoniza Rodrigo Rangel

Por: Rodrigo Rangel - Atualizado em 
A ex-miss Bumbum no gabinete do marido: bolsa de 8 000 reais e vestido de um botão só
A ex-miss Bumbum no gabinete do marido: bolsa de 8 000 reais e vestido de um botão só(VEJA.com/VEJA)
Na manhã de segunda-feira, a ex-­miss Bumbum Milena Santos foi a um salão de beleza de Brasília. Queria se produzir para o grande evento do dia: um ensaio fotográfico da sua primeira visita ao novo gabinete do marido, o petista Alessandro Teixeira, nomeado três dias antes pela presidente Dilma Rousseff para o cargo de ministro do Turismo. Conhecida na internet, local onde se contam às dezenas as páginas em que aparece em fotos sensuais e vídeos eróticos, Milena vive há dois anos com o ministro, mas, até onde se sabe, mantinha-se, digamos, recolhida desde que chegou a Brasília. Na semana passada, decidiu que era hora de fazer-se, digamos, mais visível. Com um vestido branco de um só botão, abaixo e acima do qual tudo se revelava, ela posou para fotos e depois postou as imagens na página de uma rede social. Exibindo uma bolsa Dolce & Gabbana de 8 000 reais, a ex-miss Bumbum aparece nas fotos trocando olhares e beijos com o marido, faz poses diante da mesa de reuniões e ao lado da bandeira nacional. "Compartilhando com meus amigos meu primeiro dia de primeira-dama do Ministério do Turismo do Brasil. Te amo, meu amor, juntos somos mais fortes. Não é atoa (sic) que ao lado de um grande homem existe sempre uma linda e poderosa mulher", escreveu ela.
Em questão de minutos, a sessão de fotos causou furor nas redes sociais - e, claro, virou notícia. Com o governo derretendo e a presidente da República em via de ser despejada do Palácio do Planalto, era a cena que faltava para imprimir a marca de zorra total ao clima de fim de festa em Brasília. O fato de o coadjuvante do escândalo ser figura próxima da presidente só fez piorar a situação. O gaúcho Alessandro Teixeira é homem de confiança de Dilma, ocupou cargos importantes no governo e participou da coordenação da campanha da petista à reeleição. Em tempos normais, o ministro - qualquer ministro - que se visse envolvido nessa situação, digamos, insólita teria sofrido pelo menos uma das famosas reprimendas da chefe. Os tempos são outros. A anestesia da presidente reflete o estupor reinante nas repartições públicas de Brasília.
São muitos os sinais de que o governo experimenta seus últimos dias de poder. Na manhã de quinta-feira, no subsolo do Palácio do Planalto, funcionários providenciavam caixas de papelão vazias. A limpeza das gavetas foi antecipada. A rotina também já era bem diferente daquela dos dias normais. "Na verdade não dá nem para falar em rotina. Está tudo parado por aqui", disse uma funcionária da Presidência. "O clima é de enterro. Está começando a cair a ficha de que erraram feio." Dilma ainda tenta demonstrar que tudo funciona normalmente, mas sua agenda revela o oposto. Nas duas últimas semanas, houve 23 audiências, a maioria com ministros da casa - e todas para tratar do processo de impeachment e da estratégia de classificar o afastamento como "golpe". Nada de encontros com chefes de Estado estrangeiros ou presidentes de multinacionais. Nada de discutir projetos e ações de governo. Com a debandada dos aliados, a Esplanada está repleta de representantes do terceiro escalão chefiando ministérios. Alguém sabe como se chama o ministro da Saúde? Imagine o dos Portos...
Na intimidade, no Palácio da Alvorada, a presidente tem passado madrugadas em claro. Ela se recolhe no fim da noite, mas desperta no meio da madrugada. No escritório, a alguns metros do quarto presidencial, liga o terminal em que recebe despachos de agências de notícias. Fica on-line, lendo o que será publicado nos jornais, até praticamente o raiar do sol. A família tem ajudado a presidente a lidar com a situação. Dias antes de o plenário da Câmara votar o impeachment, ela ganhou o afago do irmão, Igor, que deixou a pequena Passa Tempo, no interior de Minas, para ficar uma semana como hóspede do Alvorada, ao lado de Dilma e da mãe, Dilma Jane. Ao retornar a Minas, Igor Rousseff teve de ouvir piada do patrão, o empresário Alberto Ramos, para quem toca um projeto de criação de peixes. "Eu disse a ele, brincando: 'Agora você vai ter de trabalhar mais porque sua irmã em poucos dias já não vai ser mais presidente' ", contou Ramos. O empresário, que nos tempos áureos de Dilma chegou a ser levado por Igor para uma conversa de duas horas com a presidente em Brasília, também já abandonou o barco. "Eu contrato o Igor, mas a irmã dele eu não contrataria. Ela está caindo por ignorância e incompetência", diz.
Às vésperas da decisão do Senado sobre seu afastamento, a presidente corre para anunciar um pacote de bondades. Tenta criar uma agenda positiva em meio ao caos. Divulgou que pretende, por exemplo, reajustar o Bolsa Família. Em paralelo, esforça-se para mostrar resiliência. Na sexta-feira, em nova cerimônia para a militância no Planalto, classificou a denúncia que deu origem ao processo de impeachment de "ridícula". No fim de festa em que se transformou o seu governo, com até ex-miss Bumbum dando espetáculo, o adjetivo pode ter larga aplicação.

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